O Para-raio de Olho Grande
Conto


Sentinela - Luzia Vitória Issa*


Vamos começar pelo nome. Não era um nome muito comum, mas a situação exigia que ele o tivesse. Para falar a verdade não sei para que um nome uma vez que ele jamais respondeu ao ser chamado. Pequenino tinha certas esquisitices como, por exemplo, sumir... aí começava a novela: eu chorava, promovia todos os membros da família e as visitas que por azar resolvessem passear por essas bandas, a oficiais de resgate. Era necessário encontrá-lo, Vivo! Óbvio! Um verdadeiro exército da salvação se formava em uma área de 1000m2 cheia de plantas, escadas, grama, capim, madeira, construção inacabada e suas sobras. Um caos... E eu sentada chorando sem mover uma palha para ajudar (como dizia minha avó).

ACHEI!!! Ô palavrinha mágica! Num instante parava de chorar, levantava, erguia o corpo colocava-o no lugar, que em geral ele não ficava e tudo voltava ao normal. Até o próximo desaparecimento. E o que mais me preocupava era que ele era cego. Já veio para mim cego o coitadinho. Não sei como ficou nem nunca tentei saber. Estava apenas cumprindo uma exigência de uma parenta que afirmava ser necessária a presença dele em casa. Todas as casas deveriam ter um. Certo! Já tinha!

A explicação para a necessidade do convívio era que, com ele em casa, todos os males desejados a mim ou à minha família iriam para ele! Como eu, formada, pós graduada, mãe de família, quarentona!!!! Fui cair numa dessas! Como eu que me acho esclarecida fui aceitar essa situação! Logo eu que os defendo. Puxa... fiquei agora sem palavras...Ah! E o mais constrangedor foi convencer meu marido a aceitá-lo no lar. Desde o início sabia que não seria uma convivência harmoniosa. Oh meu Deus, eu e essas premonições. Se as mulheres têm seis sentidos, eu devo possuir o dobro só que, com a bússola quebrada. Deveria saber...

Pois bem, começava aí o meu desespero... ai meus sais...o lugar predileto de Ambrósio Williams Barriquello – o meu cágado – ficar era embaixo do carro mais precisamente do pneu. A situação era no mínimo desesperadora!!! Cada vez que eu ouvia a frase: -vou sair! o meu coração disparava, mas mesmo assim, eu perguntava meio amarela e sem voz : -de carro? Como sempre a resposta era afirmativa lá ia eu feito louca olhar embaixo de todas as rodas para ver onde o ceguinho de uma figa estava. Ufa...pode ir meu amor. Era essa a rotina de todas as horas do dia de manhã (CEDO), meio-dia, à noite, madrugada....aaaiiiii minhas costas e meus joelhos.

Por fim o inevitável aconteceu!!!! Um dia Ele achou de ficar debaixo das folhas e meu marido resolveu ele mesmo abrir o portão para entrar em casa. Ouvimos apenas um estalo. -NÃO ME MOSTRE!!!!! -Calma meu amor foi só um pedacinho da casca, ele recupera. Nunca recuperou a casca quebrada...e a rotina continuou: procura debaixo da roda! Procura no terreno, que o bichinho sumiu! Ô ceguinho prá andar e se esconder. Um dia, aquele dia que todos os animais irão se encontrar com São Francisco (dizem que ele protege os animais...) o meu “para-raio de olho grande” fechou os seus (que já viviam fechados) para sempre. Francamente respirei aliviada ele e eu descansaríamos. Por via das dúvidas me ensinaram que ter uma carranca na entrada da casa é batata. Afasta tudo!! Já está lá!! Feia prá danar, mas não sai do lugar! Ufa!!!



*Luzia Vitória Issa
é jornalista e a mais nova integrante do Sentinelas da Liberdade. Email:
luziavitoriaissa@hotmail.com


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postado em 31 Jan 2010 por Sentinelas da Liberdade
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