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Estou teclando de Salvador da Bahia sob um calor infernal a dias do começo de sua principal festa: o carnaval. Falo ou não sobre o tema? Será que rende uma lauda?
Comprei uma lente de aumento, mas já era tarde, eu havia assinado sem ler. Confiando na boa fé e nos sorrisos dos autores da proposta. Na viagem não posso levar notebook, nem em caso de encontrar alguma lan house, atualizar o Facebook. Até quando acabar o arrastão de Brown e Ivete Sangalo na quarta-feira de cinzas.
O carnaval baiano passou por uma grande modificação nos últimos 20 anos. Quando brincava o carnaval com 18 anos, havia os bailes tradicionais nos clubes, como o branco e preto, no Baiano de Tênis, e poucos iam à rua. Só o povão. Hoje tudo mudou, privatizaram o carnaval e só a elite tem dinheiro para participar dos blocos, enjaulados numa grossa corda puxada pelos “cordeiros”.
Estes recebem uma mixaria, mas como a crise assola se propõem a um trabalho árduo e degradante. Uma espécie de neo-escravidão. Enquanto a elite branca se acaba de beijar na boca, levantar a mãozinha ou dançar a dança da galinha, os cordeiros, quase todos negros protegem os pequeno burgueses e puxam a corda. Sem eles não haveria carnaval e muitas vezes trabalham sem equipamento adequado como luvas, bonés e tênis.
Há 20 anos blocos como Jacu, Amigos do Barão e Apaches do Tororó não tinham cordas segregacionistas, era um carnaval verdadeiramente popular. Agora ainda inventaram os caríssimos camarotes aonde você pode fazer massagem, tomar banhos de ofurô, dançar música eletrônica e todo tipo de mordomia que justifique o preço exorbitante.
E o povo? Pula na “pipoca” que o governo petista (como gasta em publicidade!), promete uma série de atrações. Ano eleitoral. Mas como os blocos saem um atrás do outro e são dezenas, os pipoqueiros ficarão espremidos entre um bloco e outro. Pobre patuléia. Os blocos hoje são grandes empresas gerenciadas de modo profissional e que têm como objetivo o lucro. Dane-se o folião! Paga caro e tem que engolir calado.

Outra parte da patuléia quer tirar um “troco” no Carnaval e dorme os cinco dias na rua, vendendo cerveja, água e cachorro quente para os endinheirados. Como os preços sobem a cada ano e a Bahia não é um estado rico, o percentual de turistas nos blocos cresce exponencialmente. Você pode comprar seu abadá em qualquer cidade brasileira. A música é medíocre, repetem-se refrões que os foliões já altos pelo álcool reproduzem freneticamente.
O tema das músicas é quase sempre o amor, o desejo, o gozo para induzir o ouvinte a participar de uma verdadeira festa em homenagem a Dionísio. Ou Calígula. Os cantores são pop stars milionários, e basta apenas aumentar os níveis hormonais dos foliões para que ninguém reclame da música patética e do preço pago por um arremedo de vestimenta, que as gatinhas ainda customizam para ficar mais “in”.

Conclusão: o carnaval virou uma grande e organizada indústria e quem lucra são os donos de bloco e camarotes. Quanto à prefeitura e o estado tenho minhas dúvidas dos números apresentados. Um verdadeiro teatro do absurdo. Milhares de jovens seguindo um monstruoso caminhão em que um pop star canta músicas de quinta categoria e ainda pagam quase dois salários mínimos.
Como diz a música, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. Como não vou, estarei no Butão, pela lógica matemática estou morto. E enterrado, no belo mausoléu da família no Campo Santo, o cemitério VIP de Salvador.
Agradeço os que forem orar por minha alma, que perdi em Londres e nunca mais achei. Se alguém encontrar favor devolver ao proprietário. Como estou para ser canonizado, já recebi ligação do Vaticano (o mausoléu é chic) podem fazer seus pedidos para São Tatau. Que ele atende. Feliz carnaval e amém meus filhos. Que Odé Kayodê proteja vocês das balas perdidas e gangs que atuam no carnaval!Axé!
*Octaviano Moniz: “Ciências Políticas, Relações Internacionais, Cibercultura e Filosofia”. Leitor compulsivo. Admira Graciliano Ramos, Bukowski, Noam Chomsky, Pierre Levy e André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
Cursa Jornalismo na Faculdade Social (FSBA). É um artista multimídia. Trabalha com pintura, escultura, vídeo, fotografia e qualquer meio que ele possa expressar sua visão particular de mundo. Foi criador do Curso de Pintura Contemporânea no Museu de Arte Moderna do Estado da Bahia (MAM). Dono da Tatau Arte Contemporânea no Pelourinho, década de 90. A galeria expôs os maiores expoentes da arte baiana como Marepe, Mário Cravo Jr. e Neto, Christian Cravo, Joãozito, Carybé , Vauluizo etc.
Bastante inquieto, morou longo tempo na Europa nos anos 80, onde pesquisou desde os clássicos até a Arte Contemporânea. Residiu e exibiu na Inglaterra, Suíça e Croácia. Já cursou e abandonou Engenharia Química e Administração de Empresas, mas o jornalismo é forma de expressar o mundo através das palavras. Fluente em inglês e se vira em francês!
*Arte: Sentinela - Octaviano Moniz.
