Desobedeço o jornalista Valmir Palma, o buda negro (já falecido), que, na década de 1970, distribuía lições de procedimento profissional aos novatos da redação de A Tarde*. Ele sempre lembrava: “repórter não deduz”. Desobedeço e arrisco esta dedução: os quatro consulados norte-americano no Brasil – Recife, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo – faturam mais de US$ 3,000,000.00 (três milhões de Dólares) por mês com o visto obrigatório. Esse cálculo está limitado apenas à taxa mais barata (visto B1) que o interessado recolhe na rede do Citibank: US$ 131.00 (cento e trinta e hum Dólares). Desconsiderei, por exemplo, a taxa que é cobrada para a marcação da entrevista – R$ 38,00 (trinta e oito Reais) – que, submetida à mesma operação – 250 pessoas x 22 dias x 4 agências – corresponderia ao ganho adicional de mais de R$ 836 mil (oitocentos e trinta e seis mil Reais) ou cerca de US$ 450 mil (quatrocentos e cinquenta mil Dólares) por mês. Estou utilizando a cotação de R$ 1,86 por 1 dólar.
A economia em torno do visto norte-americano mexe com valores monumentais se considerarmos o deslocamento de grande parcela de pessoas para submeterem-se a entrevista em Recife, em Brasília, em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Essa movimentação mexe com as companhias aéreas, com as empresas de transporte rodoviário, com a demanda em hotéis e restaurantes e até com o comércio dessas capitais, na medida em que alguns associam a obtenção do visto ao entretenimento nessas cidades turísticas. É algo em torno de R$ 22 milhões (vinte e dois milhões de Reais) ou cerca de 11,800,000.00 (onze milhões e oitocentos mil Dólares) por mês injetados nessas cidades. Todos os valores que estou apresentando são modestos face ao volume de dinheiro que gira todo mês com o visto norte-americano.
A contrapartida do Brasil à situação descrita acima é fazer o mesmo com o povo norte-americano. O Brasil exige – por uma questão de reciprocidade de tratamento – que o povo dos Estados Unidos também pague a taxa de marcação de entrevista e a taxa correspondente ao visto (o mais barato custa US$ 130.00). O Brasil tem nove consulados nos EUA – Washington, Atlanta, Boston, Chicago, Houston, Los Angeles, Miami, Nova York e São Francisco – e expande os serviços consulares através do programa de consulados itinerantes. Em janeiro passado, a itinerância foi no Estado da Virgínia (em Virginia Beach e em Richmond) e neste fevereiro está sendo nos Estados de Kentucky (Louisville) e Ohio (Cincinnati). País continental como é o Brasil, nos Estados Unidos, o castigo do visto, me parece, é mais suave do que no Brasil.
Acrescente-se que o visto vai muito além das taxas, das passagens, das hospedagens, do comércio em geral, porque dele se beneficia também uma turma solícita que se avizinha dos consulados e que é constituída de taxistas e despachantes, estúdios fotográficos e copiadoras. Vi isso de perto em Recife no último dia 1º de fevereiro. Essa turma merece nosso reconhecimento. Isso porque há candidatos ao visto que chegam aos consulados sem a cópia impressa e assinada dos formulários DS156 e DS157 (conforme a natureza do visto, há outros), sem o recolhimento da taxa no Citibank e sem a fotografia no formato 5 x 5 ou 5 x 7, sobre fundo branco e com a data inferior a seis meses decorridos. A turma entra em ação e o trabalho integrado e eficiente surte efeito. Em pouco tempo o candidato volta à fila com o sorriso no rosto.
Se meu texto exala alguma indignação, a explicação está na situação que vivi, com mais três pessoas, nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro. Fomos e voltamos de carro (Fiat Idea 1.4) porque assim nos pareceu mais econômico do que a soma das passagens aéreas de alta estação. Saímos às 5h30 de 31 de janeiro, via Linha Verde e BR 101, e chegamos a Recife no final da tarde. Foram 12 horas e meia de uma viagem tormentosa por causa dos raros trechos de via única, dos trechos esburacados e/ou em obras, da atenção redobrada para não atropelar bicho e gente e porque, sob essas condições, dirigir à noite deveria ser proibido.
Recife, no final da tarde de 31 de janeiro, estava agradável. O grupo bebeu sopa no Paço Alfândega e pretendeu comer uma tapioquinha defronte da Sé de Olinda, mas sequer se aproximou de lá porque tudo era Carnaval e assim será até o último suspiro de fevereiro. Recolhemo-nos por volta das 22h e às 6h30 do dia seguinte tomamos o café na Pousada Bela Vista e, por volta das 7h10, estávamos na fila do consulado. Os três candidatos, agendados para às 8h de 1º de fevereiro, ingressaram no horário. Entregaram os formulários, foram entrevistados, foram aprovados, pagaram o Sedex e já estão recebendo os passaportes com o visto norte-americano válido até 2015. Sabem, todavia, que o visto não é suficiente para ingressar no país, portanto a tensão prossegue... Enfim, saímos de Recife às 12h30 do dia 1º e chegamos em casa, são e salvos graças a Deus, por volta de uma hora da madrugada de 02 de fevereiro.
Apelo para a Emenda n. 1 da Constituição dos Estados Unidos da América para que não venha a sofrer numa porta de entrada desse admirável país qualquer punição pelo que está escrito aqui. Saliento que não sou completamente contra o visto, mas sou contra os procedimentos para obtê-lo. Advogo que, pelo menos, se devolva à primeira capital do Brasil o serviço completo do consulado para que o custo final para se rever o Mickey não nos deixe com este aspecto de Pateta.
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário.
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* A Tarde é o jornal impresso de maior circulação na cidade do Salvador/BA.