Tragédia transformada em insulto
Teleanálise
Sentinela - Malu Fontes *
Assim como há vergonha alheia, há constrangimento alheio. E há, sobretudo, apresentadores, astros e estrelas de televisão dispostos, todos os dias, a constranger telespectadores e qualquer ser sensato que divida com eles um estúdio, um cenário ou algo parecido. Que a tragédia do Haiti ainda iria render vários desdobramentos em termos de tratamento recebido pela televisão, não se tinha dúvidas. Entretanto, à medida que o tempo se distende e as emissoras produzem pasmaceiras como matérias em que donas de casa de Recife e Fortaleza estão revoltadas porque seus trapos doados aos desabrigados ainda não embarcaram, a criatividade para ampliar os modos de enquadramento da tragédia corre solta.
Na última segunda-feira, só para não perder o hábito, a apresentadora Ana Maria Braga adicionou mais uma pedrada à sua coleção de gafes e equívocos cometidos em seu Mais Você. Em sua cozinha de mansão/maquete/estúdio moderninha do Projac, em seus fornos elétricos que são o sonho de consumo das donas de casa high tech, a apresentadora cometeu o desatino de mandar preparar, assar e servir, ou pelo menos dispor sobre a mesa, diante das convidadas entrevistadas, nada menos que bolachas de barro. Sim, biscoitinhos de terra. Como sempre, sua intenção não era, nem de longe, fazer mais uma vez o que sabe fazer de melhor, ou seja, piada de muitíssimo mau gosto, sobretudo por usar como mote uma tragédia humana de impacto intercontinental, pois é isso o que foi, é e será o terremoto do Haiti.
Terra com manteiga - Certamente, o cardápio exposto foi definido em função de duas das entrevistadas do dia, a jornalista Lília Teles, repórter da Globo, e a secretária da Pastoral da Criança, Rosângela Altoé, serem recém chegadas de Porto Príncipe, onde viram e vivenciaram toda a dimensão da tragédia haitiana. Talvez por isso, Ana Maria achou por bem tematizar melhor a abordagem da tragédia haitiana e ilustrar as entrevistas mandando, estrategicamente, suas cozinheiras prepararem uma fornada fresquinha de biscoitos de terra.
Para cometer essa aberração na tela da TV, além de usar como álibi a presença das entrevistadas e o tema abordado, a coadjuvante do papagaio de espuma lançou mão de uma reportagem televisiva feita em julho do ano passado pelo repórter Régis Rösing. Na matéria, o jornalista mostra-se chocado, com propriedade, com a cena em que mães haitianas (antes do terremoto, que fique claro), preparavam e serviam para seus filhos de colo biscoitos feitos de terra misturada com água, sal e uma pitada de manteiga. A cena, capturada pela sensibilidade de Rösoing e de seu cinegrafista, foi transformada em um insulto no Mais Você. Ou pode-se dar outro nome à atitude de uma apresentadora que, num cenário sofisticado, num programa de entretenimento, serve guloseimas de terra em louça branca para ilustrar o drama de um país paupérrimo?
Cachorras cenográficas – O constrangimento alheio teve início quando Ana Maria convidou Lília para sentar-se no sofá e esta, por muito pouco, quase senta sobre uma das duas cachorras cenográficas do programa, Belinha e Sombrinha. Como a anfitriã estava voltando de férias, inaugurava no programa daquela manhã sua mais recente tintura e textura capilar, possivelmente alguns adereços inseridos clinicamente em diferentes pontos do corpo, ao mesmo tempo em que ostentava um decote de programa noturno num vestido longo pink-dourado de festa, certamente escolhido para recepcionar o convidado do bloco anterior, Mateus Solano (o galã da vez que faz os gêmeos de Viver a Vida). Esse conjunto de detalhes, associados às bolachas de barro, faziam com que o descompasso entre a frivolidade da hostess e a contenção, discrição e seriedade das entrevistadas se tornasse abissal.
Quem teve o privilégio de não se constranger com a cena descrita, por privar-se de tal visão insultante, terá dificuldade de encontrá-la na íntegra em sites de compartilhamento de vídeos. Apenas a primeira parte da entrevista com Lília está circulando na rede e os biscoitos de terra só entraram em cena na segunda parte, quando junta-se à jornalista a secretária da Pastoral, cuja presença no programa devia-se ao fato de estar a centímetro de Zilda Arns quando esta morreu atingida por escombros da catedral Sacre Coeur, em Porto Príncipe.
Comeu? - Até o fim da semana, a cena só podia ser revista na íntegra pelos assinantes da globo.com. Ao final do programa, com os créditos já subindo na tela, Lília Teles, certamente sem saber o que dizer, como ocorre naqueles segundos intermináveis quando se entra em um elevador com estranhos, entabula, constrangida, um diálogo nonsense, dirigindo-se a Ana Maria: ‘você chegou a comer?’ A interpelada responde: ‘não. E você?’. ‘Não’, diz Lília. E nada mais se ouve. Mesmo porque, àquela altura, o direito de cometer e dizer absurdos já havia transbordado.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 08 de Fevereiro de 2010. maluzes@gmail.com
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