Isto é contra o DAIME: isto não é jornalismo sério




por
Débora Pereira - jornalista, doutoranda em Ciência da Informação do PPGCI da UFMG, orientada pela professora Maria Aparecida Moura. É pesquisadora do Núcleo de Estudos das Mediações e Usos Sociais dos Saberes e Informações em Ambientes Digitais - Nemusad. É colaboradora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos - Neip.

Essa semana a revista Istoé pubicou um exemplo do que NÃO É JORNALISMO. A reportagem ataca a doutrina do santo daime e está cheia de erros, além de ser visivelmente preconceituosa.

As frases abaixo entre aspas são da reportagem, as respostas em seguida são de Rafael Guimarães dos Santos, Biólogo, Doutorando em Farmacologia pela Universidade Autônoma de Barcelona, co-autor de um livro sobre a ayahuasca e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplianres sobre Psicoativos – NEIP .
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“A DMT atua nos sistemas cerebrais reguladores da produção e absorção, pelos neurônios, de serotonina, dopamina e noradrenalina”. Embora existam estudos demonstrando que a DMT pode atuar nos sistemas dopaminérgico, colinérgico, adrenérgico e noradrenérgico (Haubrich & Wang, 1977; Waldmeier & Maître, 1977; Jenner et al., 1978, 1980; Pierce & Peroutka, 1989, citado em Riba, 2003; ver também Barker et al., 1981), a DMT parece atuar principalmente no sistema serotoninérgico (ver Riba, 2003, para uma revisão);

- “Seu efeito é imediato (….) dura de quatro a oito horas”: seu efeito dura de trinta a sessenta minutos para se fazer sentir; uma única dose não dura oito horas, mas sim por volta de quatro horas (Riba et al., 2001);

- “Ao ser ingerida, provoca grande alteração nos sistemas da serotonina”: aúnica evidência científica disponível apenas indica que as substâncias presentes na ayahuasca, especialmente a DMT, atuam nos receptores serotoninérgios. Mesmo assim, não existem estudos em seres humanos sobre isto (ver Riba, 2003, para uma revisão);

- “A ação da harmina potencializa o efeito da DMT”: esta informação está equivocada. A enzima MAO degrada a DMT quando está é ingerida por via oral. No entanto, a harmina, por meio de sua ação como um inibidor da enzima MAO, permite que a DMT chegue ao cérebro. Além disso, a ação da harmina também permite que a DMT atue por mais tempo, já que a enzima MAO está inibida (ver Riba, 2003, para uma revisão);

- “Pessoas com algum distúrbio psiquiátrico (esquizofrenia, transtorno bipolar por exemplo), podem ter problemas agravados”: não há dados científicos que comprovem esta afirmação em relação a transtornos bipolares; para o caso da esquizofrenia, ver Santos & Strassman (2009).

- “Há chances de ocorrências de crises e de os pacientes ficarem em permanente estado de alucinação”. O mais correto seria dizer: “estado prolongado de alucinação” (ver Santos & Strassman, 2009);

- “O uso por gestantes é perigoso (…) modificações neurológicas nos fetos (….) pelo mesmo motivo não deveria ser consumido pelas crianças”: não existem dados científicos que comprem tais afirmações. Os estudos realizados em adolescentes da UDV não encontraram nenhuma evidência de danos neuropsicológicos ou psiquiátrios. Alguns dos adolescentes tomavam a ayahuasca desde crianças, e alguns deles desde que estava na condição de fetos (Da Silveira et al., 2005; Doering-Silveira et al., 2005).

Notas:

(1) Hélio Gomes. “As Encruzilhadas do Daime”, Revista Isto É, 5 de fevereiro de 2010.

Ver:
http://www.istoe.com.br/reportagens/48304_A+ENCRUZILHADA+DO+DAIME+PARTE+1?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Bibliografia:


BARKER, S.A., MONTI, J.A. & CHRISTIAN, S.T. N,N-dimethyltryptamine: an endogenous hallucinogen. International Review of Neurobiology, 22: 83-110. 1981.


DA SILVEIRA, D.X., GROB, C.S., DOBKIN DE RIOS, M., LOPEZ, E., ALONSO, L.K., TACLA, C. & DOERING-SILVEIRA, E. Ayahuasca in adolescence: a preliminary psychiatric assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37 (2): 129-133. 2005.

DOERING-SILVEIRA, E., LOPEZ, E., GROB, C.S., DOBKIN DE RIOS, M., ALONSO, L.K., TACLA, C., SHIRAKAWA, I., BERTOLUCCI, P.H. & DA SILVEIRA, D.X. Ayahuasca in adolescence: a neuropsychological assessment. Journal of Psychoactive Drugs, 37 (2): 123-128. 2005.

HAUBRICH, D.R. & WANG, P.F.L. N’N-dimethyltryptamine lowers rat brain acetylcholine and dopamine. Brain Research, 131 (1): 158-161. 1977.

JENNER, P., MARSDEN, C.D. & THANKI, C.M. Behavioural changes induced by N,N-dimethyltryptamine in rodents [proceedings]. British Journal of Pharmacology, 63 (2): 380P. 1978.

JENNER, P., MARSDEN, C.D. & THANKI, C.M. Behavioural changes induced by N,N-dimethyltryptamine in rodents. British Journal of Pharmacology, 69 (1): 69-80. 1980.

RIBA, J. Human Pharmacology of Ayahuasca. Doctoral Thesis: Universitat Autònoma de Barcelona, 2003.

RIBA, J., RODRIGUEZ–FORNELLS, A., URBANO, G., MORTE, A., ANTONIJOAN, R., MONTEIRO, M., CALLAWAY, J.C. & BARBANOJ, M.J. Subjective effects and tolerability of the South American psychoactive beverage Ayahuasca in healthy volunteers. Psychopharmacology (Berl), 154 (1): 85-95. 2001.

SANTOS, R.G. & STRASSMAN, R.J. Ayahuasca and Psychosis (eLetter). British Journal of Psychiatry (online), 3 December 2008.
http://bjp.rcpsych.org/cgi/eletters/190/1/81-a#22556.

WALDMEIER, P.C. & MAÎTRE, L. Neurochemical investigations of the interaction of N,N-dimethyltryptamine with dopaminergic system in rat brain. Psychopharmacology (Berl), 52 (2): 137-144. 1977.
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postado em 10 Feb 2010 por Sentinelas da Liberdade
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