Em cada diferenciado vive um Boris



TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*


A crônica da vida pública brasileira ensina todos os dias aos cidadãos que se um fato não foi veiculado na TV, na verdade é como se não tivesse acontecido, exceto para as poucas pessoas a quem o mesmo se refere diretamente. Exemplos de episódios recentes no País provam o quanto aquilo que é e aquilo que deixa de ser capturado por uma câmera de TV adquire e perde, respectivamente, toda a dimensão. No final do ano, a sociedade brasileira lambeu os lábios de contentamento com a oportunidade que teve de julgar e condenar moralmente e no grau máximo o jornalista e apresentador Boris Casoy, por seus comentários elitistas, emitidos nacionalmente por descuido, após a apresentação de uma matéria em que garis, entrevistados durante sua jornada de trabalho, desejavam feliz ano novo aos telespectadores.

Sem se dar conta de que câmeras e microfones do Jornal da Noite, da Band, ainda estavam ligados, o jornalista disse, com tom de asco, o quanto considerava ridículo, para ele, apresentar notícias nas quais garis desejavam feliz ano novo. Disse que os considerava a última das classes entre os trabalhadores. Ao tomar conhecimento de que fora ‘denunciado’ pela tecnologia, Boris fez o que geralmente se espera nesses casos, mas que, na prática, soa ainda pior que a opinião já emitida. Afinal, quem há de acreditar que um homem cuja opinião expressa, ouvida por milhões de pessoas, de fato esteja sendo sincero quando pede desculpas pelo que disse, argumentando que não pensa assim?

COALHADA AZEDA - Nesses casos, quando os desdizeres vêm, Inês já não é apenas morta: já foi cremada. Que o diga o mal estar gerado por uma ‘brincadeira’ (seguida de desculpas) feita no twitter, durante o carnaval, pela irmã de Ivete Sangalo em relação a Cláudia Leitte, usando uma metáfora de coalhada que não desce bem e azeda, referindo-se a problemas no som da outra estrela do axé. Outro exemplo de que os registros da TV são mais importantes do que, de fato, aquilo que se diz, se deu na primeira semana de fevereiro. Um almirante e um general foram ao Senado para serem sabatinados, visando referendar seus nomes para a mais alta corte militar do país: o Superior Tribunal Militar.

Durante a sabatina, alguns senadores fizeram perguntas sobre a presença de homossexuais nas Forças Armadas. A resposta não poderia ser mais assertiva. Disseram com todas as palavras que gays não têm lugar na vida militar, que ninguém acata ordens de um homossexual e que, portanto, estes devem procurar carreiras bem distantes dos quartéis. Ora, até aí, qual a novidade? Ou seja, quem é alfabetizado neste país, tem acesso a informações, é dotado de alguma sensatez e não sabia que generais e almirantes, sobretudo os estrelados indicados para cargos de destaque, pensavam de tal forma? E quem não sabe que, durante a sabatina, nenhum senador ou senadora contestou quaisquer das opiniões e afirmações feitas por ambos em relação aos gays?

Quem, em sã consciência, achou que, por conta de tais opiniões, os dois não seriam referendados pelos senadores tão liberais da República brasileira, sempre tão atentos a questões relacionadas às minorias? Então, por que o barulho? Apenas por conta da repercussão provocada pela veiculação do episódio nos telejornais, o que equivale a dizer que os senadores presentes à sabatina realizaram uma proeza sem par: só ouviram o que os sabatinados disseram muitas horas depois, mais precisamente quando a fala que ouviram de viva voz foi exibida na TV.

CAMAROTE DIVINO - Uma prova de que os elitistas, privilegiados e essa nova classe social brasileira que se autodenomina com um adjetivo esdrúxulo e exige tratamento homônimo, ou seja, ‘diferenciado’, podem ficar à vontade quando não há uma câmera de TV por perto foi vista no Carnaval do Rio. Pela primeira vez tendo que experimentar a insuportável e humilhante experiência do anonimato, famosos e estrelados de camarotes vips do Sambódromo, deslocados, por conta da presença de Madona e de Paris Hilton, para baias de celebridades de segunda linha, não mediram palavras.

Colunas dos jornais mais importantes do país transcreviam frases em que ricos, empresários, estrelas e diferenciados em geral, inconformados por serem ‘mal tratados’ para que Madona e Jesus não fossem importunados no camarote divino, lembravam aos berros a hostess das cervejas que ali ninguém era peão de favela para ser tratado daquele jeito. Nesses termos, literalmente. Ah, se fosse Boris e se houvesse câmeras de TV registrando tais bastidores...

Os ‘diferenciados’ com comportamento desse quilate são os mesmos que, diante das câmeras, pedem a paz, discriminam estupefatos declarações como as de Boris, amam os pobres, lutam por suas causas e compram grifes carérrimas protegidos pela desculpa de que pagam caro porque tais marcas ajudam uma comunidade pobrinha do Brasil profundo. Outros vão além e são ainda mais largos e alternativos: acham todas as criancinhas do Haiti umas fofas e acham que Marina da Silva, com sua história de pobreza, superação, simplicidade e estoicismo, é a solução para o país. Mas experimente mandá-las pegar uma fila, mesmo que seja para um camarote VIP e veja-se a reação. No final das contas, indiscutível mesmo é o poder de transformação que tem uma câmera televisão sobre os diferenciados. Ela faz até Dilma Roussef preparar omelete no programa de Luciana Gimenez, na RedeTV!


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
maluzes@gmail.com
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postado em 21 Feb 2010 por Sentinelas da Liberdade
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