A acolhida portuguesa e o significado da palavra pão de açúcar

Flávia Rosa*


A oportunidade de passar um período estudando no exterior veio um pouco tarde. Mas tem lá suas vantagens. A maturidade, a forma de perceber as coisas, a visão de mundo...

Cá estou em Portugal, na cidade de Braga, cumprindo quatro meses de bolsa sanduíche do doutorado. Viver Portugal tem sido maravilhoso. Um país pequeno, mas diverso na sua paisagem, nos costumes... são vários portugais!

Uma palavra que pudesse definir essa minha temporada eu diria: acolhida. O dia em que cheguei, sozinha, um vazio no coração – afinal, deixei marido, filhos, mãe, a família, o trabalho e próximo às festas natalinas –, peguei um taxi no aeroporto, chovia muito e como o motorista do taxi foi gentil!!! Ao chegar ao meu destino, onde passaria hospedada nos próximos quatro meses, fui recebida com sorrisos, abraços por quem nunca tinha me visto antes. E assim foi uma sucessão de pessoas que trilharam meu caminho e me fizeram de fato sentir-me em casa, adotar esse país, mesmo que temporariamente.

Os finais de semana é tempo de aproveitar para conhecer os arredores. Guimarães, Ponte de Lima, Barcelos, Póvoa do Varzim, Porto, Aveiro, Avanca, Ovar, Torreira... e ainda tenho planos para mais algumas cidades antes do meu retorno...

Deste roteiro eu gostaria de destacar a ida a Avanca que inclui Aveiro, Ovar e Torreira. Foi de fato o símbolo da acolhida por uma família portuguesa com laços no Brasil, na Bahia e em Pernambuco. Foram três dias de muito aprender. Avanca é a terra de Egas Moniz que, em 1949, recebeu o Prêmio Nobel pela sua descoberta do valor terapêutico da leucotomia em certas psicoses. Visitei a Casa-Museu que pertenceu ao famoso médico que além de manter um acervo dos seus estudos, uma biblioteca, apresenta, também, objetos pessoais como as coleções de cerâmica, pintura, mobiliário e ourivesaria

Em Ovar, tive a oportunidade de conhecer um animado Carnaval português com direito a desfile de grupos que utilizam desde o batuque da bateria de escola de samba à música clássica. Assisti a esse interessante desfile sem pensar no carnaval do Brasil e sim em sintonia com a animação daqueles que desfilavam, jovens animados, muito bem ensaiados e alguns grupos masculinos mais irreverentes. À noite, numa grande tenda semelhante a um circo, a festa continuava ao som, de fato, de música brasileira com a predominância do uso de fantasia, e, claro, muita bebida para subir à cabeça e reduzir o frio.

Torreira pertence ao distrito de Aveiro, situada entre a Ria de Aveiro e o Oceano Atlântico com suas embarcações típicas, os moliceiros, é uma zona de veraneio, mas também, de residências permanentes onde se come um bom prato de mariscos e se vê um por do sol inesquecível, mesmo no frio inverno.

Finalmente Aveiro, a Veneza portuguesa, cidade cortada por pontes e canais. Cidade das salinas, das praias do Farol, Costa Nova – com suas típicas casas de madeira pintadas em listas brancas com azul, vermelho, amarelo, verde... e de vários monumentos. Destaco o Museu de Aveiro onde mais uma vez a palavra “acolhida” se confirma nessa visita. Era segunda-feira e o museu estava fechado. Para minha sorte, hóspede da família de Romana Rodrigues, diretora técnica da empresa de engenharia responsável pela reabilitação das paredes da área monumental, impermeabilização e drenagem da torre sineira do Museu de Santa Joana de Aveiro, visitei o belíssimo museu que foi mostrado pelo historiador e técnico superior do Museu, José António Rebocho Christo.

O Museu ocupa o Mosteiro de Jesus, convento feminino fundado em 1458 e que teve entre as religiosas reclusas a princesa dona Joana, filha do rei Afonso V, mais tarde canonizada. Do rico acervo fazem parte a igreja de Jesus, com belíssima talha dourada e azulejos, o túmulo da princesa, obra-prima do barroco, o claustro (séculos XV/XVI), o refeitório de paredes revestidas a azulejo e uma tribuna de leitura, formando as estruturas conventuais integradas ao Museu. Conta ainda com importante coleção de arte barroca portuguesa (séculos XVII/XVIII), escultura, talha, e ourivesaria.

A aula de história da arte não findou com a visita. Foi através de José António que aprendi a origem do “pão de açúcar” numa troca de e-mail.

Os pães de açúcar são chamados também fôrmas, sinos (dependendo da sua dimensão), mas o mais usual é pão de açúcar. Serviam para serem cheios do “ouro branco” (o açúcar) que era assim transportado. No topo têm um orifício que fazia com que o melaço escorresse. Eram fabricados nas olarias próximas ao convento. Na altura em que estavam cheios, eram colocados numa outra base de barro, quase um copo gigante, que permitia que ficassem "ao contrário" e assim também se recolhia nesse recipiente o melaço.

Pela forma, essa foi a origem do nome do nosso Pão de Açúcar no Rio de Janeiro que creio, muito poucos no Brasil conhecem este fato.

O tempo foi curto e coisas muitas ficaram por ver nessa região. Reservo sempre algo para o retorno que com certeza um dia acontecerá... Tem um personagem que não pode ficar de fora desse meu relato – Antonio José de Carvalho Silva Júnior, baiano, neto de português, primo de Romana Rodrigues (filha de Margarida e sobrinha de Adelaidinha, Hortelinha e José Antõnio) que nos aproximou via e-mail e foi o facilitador dessa “acolhida” em Avanca.

* Professora da Escola de Belas Artes e diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba –, a autora escreveu este texto, na segunda quinzena de fevereiro de 2010, em Braga, Portugal, onde cumpre créditos do doutoramento em Comunicação.
Megapixel - José António Rebocho Christo
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postado em 24 Feb 2010 por Sentinelas da Liberdade
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