Artista: beba uma boa ideia!


Sentinela – Octaviano Muniz*


Na quarta-feira de cinzas fica decretada o fim da folia momesca. Moro em Salvador, no auto intitulado maior carnaval do mundo. Que honra, minha cidade no Guiness Book. Para variar estou de mau humor, acredito que minha testosterona estar subindo para o cérebro e as sinapses não vêm sendo feitas de modo adequado. Talvez se eu tivesse ido pro circuito Dodô e Osmar, ou até para o VIP camarote Glauber Rocha, tudo teria sido diferente.

Teria aprendido os passinhos do rebolation, beijado na boca até ter uma exaustão no músculo da língua, me alucinado ao ver a neo gordinha Ivete Sangalo, pirado com as pernocas do carequinha e com uma câmera de fotografar escondida, flagaria flashes indiscretos dos Vips de plantão. Que alias foram bem poucos, fora a guerrilheira, brizolista e mentirosa só me lembro do outro, o carequinha com cara de vampiro José Serra.

VIP que é VIP fica no Rio,vide a neo louca Paris Hilton, que tomou um porre e ficou de quatro e a pós-balzaquiana Maddona (51 anos). Já que comecei falando de carnaval quando minha intenção era falar de artes plásticas, deixo logo aqui minha homenagem, escrita em pleno Domingo de Carnaval: minha modesta e humilde louvação aos cantores e compositores do Axé Music da Bahia. Que levam a loucura nativos e turistas!

Reflete com exatidão o país em que vivemos, esta republiqueta de bananas, chamada Terra Brasilis. Levantar a mãozinha, o rebolation, a dança da galinha, beijar e muito na boca também é cultura. Letras que lembram o Chico Buarque, antes de virar escritor! E deve-se ouvir a todo volume! Para penetrar na alma, além de outros orifícios! É por isso que tenho orgulho de ser baiano. Compro a Folha SP num domingo e encontro a esplendorosa Claudinha Leite na coluna social. No outro, Ivetão dizendo que ordenha o leite para seu rebento.

Fico as lágrimas com tamanha cultura. E pretendem invadir o mundo. O que não duvido dada a imbecilidade do mesmo! Se Osama, nosso Bin Laden, descobrir este potencial vai deixar as armas e usar a música como forma de dominação! Os ingleses usaram ópio na China, nós podemos exportar o Carequinha, Claudinha e Ivetão como armamento bélico. Agregando valor a nossa combalida pauta de exportações! Agora entendo porque todo idiota é feliz.

Quando imagino que Ruy, Gregório e Glauber nasceram aqui, me pergunto: o que aconteceu? E novamente me lembro do ex-governador Otávio Mangabeira: pense em algo inusitado. Já aconteceu na Bahia. Já estou com 45, ouvindo Ópera, enquanto vejo pela janela jovens ensandecidos irem para a folia momesca, atrás do trio elétrico e me pergunto: Ó Deus, o que fiz para merecer este maldito exílio forçado nesta amaldiçoada terra?

Bem, já disse. Estou lendo OUTSIDERS-estudos de sociologia do desvio, um livro intrigante que tenta explicar o modus operandi dos desviantes. Serei eu um desviante? Realmente não prezo pelas regras impostas pela sociedade, muito menos pelas leis que controlam o indivíduo a agir de forma adequada. Você então me perguntaria: mas sem elas não seria o caos, o anarquismo e eu cinicamente responderia: e qual o problema? Como dizia nosso filósofo popular Chacrinha: eu vim para confundir, não para explicar! Certo? Durante a festa de Momo, devorei (pena não ter sido a Maria Sharapova) A Grande Feira- uma reação ao vale-tudo da arte contemporânea. Só veio ratificar o que penso. Meu amigo Luciano Trigo coloca que hoje os curadores vêm para o terceiro mundo como os jesuítas catequizadores e com a globalização, escolhem os artistas que fazem uma obra internacional, que não se perca fora do seu contexto. Assim você visita uma Bienal e não diferencia se o artista é chinês, brasileiro ou marciano, pois todos seguem os cânones neoliberais e tentam ao máximo fazer uma arte internacional, que diabos isso lá signifique!

Lembrando o grande poeta Ferreira Gullar, para ser artista basta uma boa ideia (lembram do slogan da caninha 51?), pode ser um fogão, um tubarão imerso em formol, cenas de sexo com sua esposa, o importante é que seja impactante, que choque, não transgredindo nos aspectos estéticos (que não interessa mais), mas transformando a exposição num parque de diversões e a obra na “mulher barbada”.

Bingo, temos uma Bienal pronta, pelo menos na parte teórica, todos seguindo estes dogmas (sim porque jamais deverão ser questionados) e garantindo ao público um espetáculo tão fascinante quanto uma viagem pelo “trem fantasma”. A técnica, o artesanato, o labor artístico pouco importam, o melhor mesmo é ter uma bateria de assistentes e para reforçar a base teórica nem tocar na obra.

É mole? É mole, mas sobe. A produção do conhecimento gerada pela obra também faz parte do passado longínquo. O importante é chocar, impactar, usar carne podre, corpos, bichos tatuados, instalações desconexas, que só façam sentido para quem criou, ou quem ler o intertexto, quanto mais hermética e complexa, mais poderosa assim enganaria até a Kant ou Pareyson.

Existem hoje 150 bienais no mundo, um modelo totalmente caduco, e funciona no troca-troca. Eu sou curador aqui, depois te chamo para ser curador ali e cada um tem seu menu de artistas, os eleitos. Todos seguidores dos cânones supracitados. E como quero entrar neste bacanal internacional (ops! digo mostra). Comprei pela manhã uma garrafa de 51 e tive várias boas ideias e boas novas: acabo de fechar contrato de exclusividade com o Saatchi (é segredo nada de Caras, nem Glamurama de Pascovitch) e vou bombar no mercado!

Vai chover top model na minha horta (prefiro as russas) e no banco do carona de minha Ferrari, ou será Lamborghini? Pouco me importam a KGB, Putin, os copyright, o Papa e alhures. A obra é minha e pronto. Serei o darling da mídia, o transgressor, o menino mau da arte brazuca (Tracey Emin não é a menina má da arte britanica,então?) e provavelmente instalarei meu loft em NY, com 200 assistentes (só pra humilhar Koons e Hirst).

Também vou providenciar com algum curador um livro de 900 páginas (só pra ser maior que o de Vik Muniz- adoro comer as obras dele, menos as com diamante, dão diarreia, cerebral). Em islandes, sem tradução, pra explicar ao mundo, a teoria da minha obra! Obra prima! Finalmente vou virar um pop star! Jantarzinho cabalistico na casa de Maddona, café da manhã com Robert de Niro, trepadinha com a Maria Sharapova, cineminha com Jack Nicholson, muito caviar beluga e só lerei a Vogue e a Cosmopolitan. Sorry garotas brasileiras, mas eu vou pra California, virar artista de cinema, viver a vida sobre as ondas, o meu destino é ser star! Bienal da Bahia? Desculpem mas minha secretária avisa que minha agenda está lotada até 2015!

Sorry, de novo, periferia, os cães ladram e a caravana passa!
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postado em 28 Feb 2010 por Sentinelas da Liberdade
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