Waldir Pires pretendeu abrilhantar a solenidade de homenagem ao ex-deputado federal Emiliano José, que é natural de São Paulo, com um discurso de reconhecimento às qualidades do novo Cidadão Baiano e de elogio à atividade política. E o fez defendendo a integridade do atual regime e o fez com a autoridade de quem conheceu perto, em dois momentos do século XX, a ditadura e suas desenfreadas consequências.
Disse o doutor Waldir ao encerrar seu pronunciamento:
– Nós acreditamos que a democracia é a ética da vida humana, é a ética da pessoa humana, é a ética da dignidade humana. Isto é que é democracia e isto é o destino, a luta comum, a meu juízo, de todos nós.
A ÍNTEGRA DO DISCURSO
Meu querido homenageado Emiliano José, eu confesso que gostaria de ter recebido a notícia um pouco mais recuada no tempo, para que aqui dissesse de plena e ampla convicção documentada na alma, bem como nos episódios da convivência, o meu depoimento sobre Emiliano José, mas eu soube faz pouco tempo.
Quero dizer-lhes que é uma beleza esta manifestação, ao mesmo tempo em que quero parabenizar a Assembleia Legislativa por estar conferindo o título de cidadão da Bahia a Emiliano José, [saliento que] isto é um sinal dos tempos de civismo que nós estamos vivendo e de expectativas, de esperanças e de convicções.
Esta Assembleia homenageia não apenas o ex-deputado, que ainda muito jovem foi contemporâneo, em sua tarefas do Legislativo, de um pedaço da minha fase de governador da Bahia. Desde aquela ocasião que fiz o perfil, dentro da minha consciência a ideia acabada de homem com grande vocação pública e política.
Emiliano José optou pela Bahia, esse é o título maior para que hoje nós todos nos sintamos, absolutamente, confraternizados com a Assembleia Legislativa da Bahia, por uma homenagem dessa grandeza, essa ampla marca de unanimidade em todos os setores da sociedade baiana, ao rapaz que, aqui, chegou nos sonhos da juventude, lutando pelo Brasil, por uma sociedade diferente, carregado de sonhos, de sentimentos, de marca, de heroísmo, em determinados instantes, e que depois, aqui, conosco tendo sido estigmatizado e conduzido a momentos tão perversos da vida política que a ditadura impôs aos jovens e aos cidadãos e cidadãs brasileiras, ele continuou escolhendo a Bahia com mérito, portanto, de quem não apenas aqui nasceu, como muitos de nós nascemos num acidente da vida humana.
Mas, ele escolheu, fez a opção e se tornou professor universitário com graduações do mais alto grau, sucessivas, jornalista respeitado, com características muito firmes de lealdade a essa tarefa extraordinária que é a do homem de imprensa ajudando a construir a consciência social e a consciência política de todo nosso povo.
Tornou-se um de nós. Recentemente, no exercício do mandato de deputado federal, por um prazo reduzido, fez a demonstração inequívoca de sua competência, de sua dedicação, sobretudo na não perda dos objetivos essenciais que orientam e que inspiram a vida política, sobretudo num País como o Brasil, num tempo como o nosso em que nós precisamos, cada vez mais, nos habituar à ideia que as circunstancias do mundo e da história foram gradativamente nos conduzindo a admitir, a convicção de que incumbe ao Brasil dos tempos de hoje uma tarefa, eu diria uma missão, que provavelmente nosso Continente, nossas áreas aqui deste Hemisfério Sul precisarão efetivar, conceber, criar as condições para que o mundo de hoje possa ser um mundo consolidador da civilização humana.
Creio que este País está convocado a isso e que precisará de pessoas, de companheiros da inteligência, dos critérios, da idoneidade, temos tantos, para afinal ajudar a definir para nosso País o que provavelmente já não incumbe às outras partes do mundo contemporâneo, ao meu juízo, já não faz parte de algumas das incumbências de continentes e de países que se perderam ao longo da civilização. Hoje nós vamos nos convencendo de que aquela ideia tão acumulada pelos estudos de nós todos de que afinal todo processo da civilização humana vai depender essencialmente do tipo das relações políticas, da natureza das relações sociais, das relações econômicas e das relações cultuais que possam determinar, de uma vez por todas, num dos instantes raros de todo o processo civilizatório, vai determinar o encontro de cordialidade e de paz entre as pessoas, entre as nações, entre as cidadãs e os cidadãos, definindo o que é política. Na realidade, a compreensão de tudo que ocorre na política se aplica ou não se aplica por via do crescimento da própria inteligência humana, do conhecimento que resulta da inteligência humana, do conhecimento que não é acompanhado, que não é conduzido, que não é leal a esse objetivo maior e definitivo da vida em sociedade, da vida gregária. O homem é um ser gregário, o homem e a mulher nasceram para viver juntos, portanto têm que construir a convivência. Na construção da convivência é preciso cultivar a paz. E tudo se altera ou não se altera segundo os instantes da história, porque nós marcamos que avançamos de forma inteligente no conhecimento de forma inteligente no conhecimento e produzimos tecnologias, produzimos ciência. E ao mesmo tempo não produzimos as mudanças nas relações sociais, as mudanças nas relações econômicas, as mudanças nas relações políticas, para que o fruto da acumulação dessa inteligência que faz a tecnologia e que faz a ciência avançar uma toda a humanidade, sirva a toda a humanidade. Não seja a acumulação estúpida, mesquinha do não aproveitamento da tecnologia e da ciência que separa, divide, estabelece privilégios gigantescos e exclusões de uma injustiça brutal, sem nenhum compromisso com o que é a humanidade.
Emiliano é dessa estirpe, e muitos companheiros com os quais convivo, tantos. Sei que esse é o objeto da nossa luta, é que sejamos coerentes no mundo de hoje. E dizer que queremos democracia porque queremos que sejamos iguais, que sejamos livres.
O Brasil vai ter que dar uma contribuição na linha dessas perspectivas de conquista. Creio que o mundo mais velho, esse mundo que durante alguns séculos, sobretudo os últimos, eles até nos comandaram no campo das ciências jurídicas, ciências sociais, pretenderam ser exemplares conosco e, no entanto, produziram um mundo tão difícil como é o mundo em que nos encontramos hoje vivendo.
Creio que esse é o desafio que está aí posto para nós. A grande verdade é que a essência da democracia, eu diria até um pouco mais, eu diria que a grande verdade é que a ética da democracia é a solidariedade humana, a solidariedade de todos. É a comunhão para todos de todas as conquistas da inteligência humana. E é isso que estamos desafiados, que sabe, a implantar as primeiras sementes, fazermos não como fizeram algumas nações no passado e que nos transmitiram algumas lições nos campos vários das nossas atividades intelectuais ou políticas.
Quando às vezes a tecnologia e a ciência se acumulou em áreas muito restritas da humanidade de hoje produziu um grau de desrespeito e de injustiça e de desigualdades terríveis. Quando se proclamou a democracia e se disse que se estavam estruturando relações democráticas em uma sociedade avançada e até estabeleciam as regras das relações não apenas sociais, políticas ou econômicas, mas, sobretudo, das relações jurídicas que eram altamente excludentes. Quando nós falávamos da democracia dos ingleses, a grande revolução dos ingleses numa fase bonita da humanidade, fim do século XVII, começo do século XVIII e outorgavam mandamentos e conquistas como a do habeas corpus, por exemplo, como um sinal do mundo novo. A verdade é que esse habeas corpus significava simplesmente para eles mesmos, e não para nós, as liberdades democráticas. Eram liberdades democráticas para eles mesmos os donos do poder, os donos da ciência, os donos da tecnologia, mas não para os outros, para o restante da humanidade. Para o restante da humanidade era a opressão, o colonialismo, a espoliação, a fome, a escravidão.
Quando nós vemos, por exemplo, que na construção da democracia do mundo, no século XVIII, antes da Revolução da Bastilha, antes da Declaração dos Direitos do Homem, em 1789, uma nação como os Estados Unidos, declarando-se democrática, editou uma declaração mais, digamos, recuada no tempo, anterior à grande Declaração dos Direitos do Homem, da Bastilha. Quando a Declaração de Filadélfia se instaura para orientar a democracia norte-americana ela diz, bom, mas nós estamos formando uma nação em que todos somos iguais, todos nascemos iguais em direitos e obrigações, mas, nesse mesmo instante, foram capazes de, paralelamente a essa declaração, estabelecer o regime da escravidão nos Estados Unidos. E foi necessário 1 século para depois surgir o Lincoln e fazer uma luta de supressão e de derrota da escravatura.
De forma que essa concepção política do nosso tempo compreende que a tecnologia e a ciência têm que estar paralelamente avançando com as relações jurídicas, com as relações sociais, com as relações políticas, com as relações econômicas, para que isso não seja uma mentira num mundo que ficou muito pequeno, que é uma aldeia em que nós todos nos conhecemos. Você sabe o que está acontecendo no extremo leste da Ásia ou no extremo oeste da África, da Oceania, dos Estados Unidos, esse é o desafio.
A participação de Emiliano na luta política do Brasil, a participação de muitos dos nossos companheiros na luta política do Brasil, tem esse sentido, o sentido de dizer que nós acreditamos na democracia, porque nós acreditamos que a democracia é a ética da vida humana, é a ética da pessoa humana, é a ética da dignidade humana. Isto é que é democracia, e isto é o destino, a luta comum, a meu juízo, de nós todos.
Obrigado.