Alhos, bugalhos e Estado bandido
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Durante a semana, qualquer notícia relevante que por ventura possa ter sido veiculada na TV foi encaminhada automaticamente à vala comum das coisas desimportantes, devidamente escanteada pela importância a ser dada à pauta praticamente única da semana: o anúncio dos nomes da equipe de Dunga. Em meio a isso, no entanto, um ou ouro assunto conseguiu driblar um pouquinho a agenda obrigatória da imprensa e se firmar de algum jeito nos telejornais. Um deles foi a relação perigosíssima mantida pelo Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, que também responde pela presidência do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, com um dos principais chefes da máfia chinesa em São Paulo, Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li, preso recentemente pela Polícia Federal, corporação à qual Tuma é hierarquicamente ligado.
Além de não negar que era amigo pessoal de Li há mais de uma década, Tuma Júnior teve conversas telefônicas com o amigo divulgadas, conversas nas quais ele encomenda para si celulares, vídeo games e computadores mais baratos. Diante das denúncias, o secretário nacional de justiça veio para a frente das câmeras cheio de autoridade e assertividade, afirmando que não consiste crime algum ser amigo de quem quer que seja. Ah, então o país, e sobretudo a Polícia do Rio de Janeiro, deve um pedido publico de desculpas e de perdão aos jogadores de futebol Adriano e Vagner Love, julgados e condenados moralmente até a medula por terem amigos nas favelas onde nasceram e por alguns deles serem traficantes. Se o argumento de que amizade não é crime vale para Tuma Júnior, que além de amigo é cliente declarado de um contrabandista e mafioso chinês, o que há de condenável nas relações de amizade dos jogadores cariocas?
190 - Na mesma semana do inferno astral de Tuma Júnior, que deixou o governo numa tremenda saia justa, já que se recusou a pedir demissão e seus chefes, leia-se o presidente Lula e o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, não sentiram-se à vontade para demiti-lo, uma outra notícia dava conta, de modo igualmente contundente, do quanto, no Brasil, alhos estão no lugar de bugalhos e o estado que deveria combater o crime e os criminosos os acolhe de bom grado e torna-se ele próprio, o estado, um bandido.
Na edição de segunda-feira, o Jornal da Band exibia a declaração contundente de Maria Aparecida de Oliveira Menezes, uma mãe cujo filho havia sido assinado na véspera, por espancamento e na frente da própria casa, por quatro policiais militares que realizavam uma blitz em São Paulo: “A minha maior dor foi ver meu filho morrer, ver meu filho apanhando, sendo assassinado em minha frente, daquele jeito e eu não poder nem mesmo gritar pela Polícia, chamar a Polícia, ligar para o 190, pois era a própria Polícia que estava matando ele”, disse a mãe ao repórter na TV. Motoboy e sem dinheiro para emplacar a moto, o rapaz, de 25 anos, ao invés de parar a moto na blitz, andou mais alguns metros e parou em frente ao portão da própria casa, certamente para melhor se proteger. Apanhou tanto dos quatro policiais que morreu ali mesmo, por traumatismo craniano. Segundo Aparecida, quando ela ouviu o barulho e correu para a frente de casa para dizer que tratava-se do seu filho, os policiais ordenaram que se calasse e lhe apontaram a arma. “Por que não o prenderam? Eram quatro homens. Podiam pegar ele, a moto e levarem, não matar.
GANSO E PREJUÍZO - Com medo da polícia, o motoboy preferiu andar mais poucos metros e parar a moto na porta de casa, o que não o livrou da morte por policiais. Ao mesmo tempo, sabe-se que o Secretario Nacional de Justiça e presidente da Comissão Nacional de Combate à Pirataria usa seus poderes e prestígio não apenas para comprar bugigangas eletrônicas de contrabandistas como intervém junto à Polícia Federal para que procedimentos em relação ao amigo sejam relaxados e materiais retidos da máfia chinesa sejam liberados. E quem se importa? Tá todo mundo P%#@! da vida porque Dunga não escalou Nylmar, Ganso, Adriano e Ronaldinho Gaúcho e ainda desencavou um tal de Grafite.
O repertório de um país diz tudo sobre o seu presente e futuro. Na edição de quarta-feira, o mesmo Jornal da Band trazia uma matéria em que a entrevistada, uma menina de no máximo uns oito anos, de classe média alta de São Paulo e entrevistada em uma escola privada, se mostrava revoltadíssima com Dunga, por razões econômicas. Dizia que era injusto, desonesto, afinal seu dinheiro não cai do céu, ter gasto dinheiro comprando figurinhas de Adriano e Ronaldinho para o álbum da Copa e, por conta dos critérios de Dunga, essas figuras tornarem-se excluídas e tão somente objeto de prejuízo. Com consciências mirins desse quilate, vai-se longe. Isso sim, a adequação entre o álbum da Copa e a lista de Dunga, é que é assunto capaz de fazer com que o brasileiro, de todas as classes sociais e idades, perca o sono e a paciência.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
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