TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Há semanas em que as manchetes de jornais parecem remeter a algum tempo e lugar no passado. A Copa do Mundo continuou sendo o papel de parede e o protetor da tela televisiva da semana. No entanto, no que se refere a notícias do cotidiano, do país e do mundo, alguns dos fatos mais veiculados, locais, nacionais e internacionais, tinha um quê intenso de Déjà Vu. Como ver a destruição das cidades alagoanas e pernambucanas sem associar as cenas às imagens do Haiti após o terremoto? A levar-se em conta as marcas deixadas pelos rios sobre as vidas dos moradores soa um milagre o número de mortos não ter atingido uma centena.
Para potencializar a sensação de que todo o tempo o telespectador está, na verdade, a assistir outra e mais outra versão daquilo já tantas vezes visto, no meio da semana a Globo veiculava matéria falando das agruras vividas pelos ex-moradores do Morro do Bumba, cujo desabamento, há três meses, em Niterói, arrasta a vida de centenas de pessoas tragédia adentro até hoje. Pouco ou nada do anunciado aos desabrigados pelos poderes públicos foi, de fato, cumprido até agora. Alguma dúvida de que os sobreviventes do Bumba, até agora abandonados à própria sorte, são os moradores das cidades nordestinas amanhã? Em versão piorada para os nordestinos, afinal o efeito Nordeste se fará valer.
IPHONE E ESPIÕES - No cenário internacional, em meados da semana tinha-se a impressão de que as narrativas da TV referiam-se a algum tempo em que a guerra fria dava os contornos do noticiário internacional. A essa altura do tempo, no mesmo dia em que o mago dos geeks, Steve Jobs, presenteava do presidente russo, Dmitri Medvedev, com o supra sumo da tecnologia do Vale do Silício, o iPhone4, o FBI anunciava a prisão de nada menos que 11 espiões russos, a serviço do governo russo, que fique claro, vivendo e atuando nos Estados Unidos. Nada mais fora do espírito do tempo do século XXI que agentes de espionagem russos presos pela Polícia americana, ou estadunidense, como exige a nova cartilha geopolítica corretinha.
Somente uma das acusadas presas denunciava que a atividade supostamente clandestina e discreta dos espiões talvez tenha passado por transformações radicais e garantia ao telespectador que a notícia era atual e não uma versão requentada lá dos idos dos anos 70 ou 80: uma das espiãs, uma mocinha toda bela, com ares e atitude de it girl, era uma globetrotter explicitamente deslumbrada. Postava tudo o que a encantava em suas andanças e vivências na terra do Tio Sam em diversas comunidades online, com direito a fotos, caras e bocas. Assim que sair da cadeia vai tornar-se celebridade e disputar espaço no jornalismo cor de rosa com Paris Hilton e companhia, essa trupe de gente de profissão indefinida que basta sorrir e aparecer para receber cachês altíssimos.
ÍNDIO QUEM? - Ainda no melhor estilo mais do mesmo, homens matando mulheres com a naturalidade de quem se livra de um inseto. Para contribuir com a confusão do telespectador, que não sabe se deve procurar notícias sobre as estrelas do Flamengo nas editorias de polícia ou de esportes, o goleiro Bruno emerge na tela como único suspeito de ter assassinado uma jovem que reivindicava o reconhecimento legal de um bebê de quatro meses que, segundo ela, era fruto de uma relação amorosa com o jogador, casado. Numa estratégia que só confirma a estupidez e a facilidade com que se comete violência contra a mulher, mesmo com todas as circunstâncias indicando que qualquer coisa que acontecesse contra Eliza Samudio o primeiro suspeito seria ele, Bruno, os amigos e a família pareceram dar de ombros a qualquer pudor e deram um jeito de fazer desaparecer a moça.
No capítulo campanha eleitoral, a novela em torno do vice do candidato José Serra aparentemente resvalou para a comédia. Para enfrentar a popularidade do presidente Lula e sua potencial capacidade de transferência de votos, o DEM encontrou o nome certo para o casamento com o tucanato: Índio da Costa para vice. Quem? Para o telespectador, essa parece ser a pergunta mais adequada.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.