No fim da tarde da última quarta-feira, uma cena insólita era exibida por alguns dos telejornais sensacionalistas nacionais do fim da tarde. Carros de Corpo de Bombeiros, dezenas de viaturas, uma multidão de policiais e um mar de gente aglomeravam-se em frente a uma casa de classe média na cidade de Vespasiano, nas imediações de Belo Horizonte. Os bombeiros e a Polícia estavam no local para, antes de qualquer coisa, apreender uma matilha composta por 10 rottweilers e um vira latas. Os cachorros eram ‘acusados’ de ter devorado, para eliminar provas, após o esquartejamento, o corpo de Eliza Samúdio, amante do goleiro Bruno, do Flamengo, acusado de matá-la para livrar-se da assunção de uma paternidade indesejada de um bebê de quatro meses.
Sim, os cachorros foram presos diante das câmeras, numa espécie de narrativa nonsense que nem mesmo em seus mais delirantes arroubos de criatividade os roteiristas de cenas bárbaras de Jogos Mortais poderiam propor, sob o risco de criarem algo impossível de ser crível em qualquer pacto de leitura do espectador. Nem mesmo nas cenas mais violentas das obras primas de Quentin Tarantino, como Pulp Fiction, seria crível que um grupo de homens desses que têm mãe, filhos, família, emprego e nenhum diagnóstico de transtorno mental, atirasse pedaços de carne humana fresca a cães de guarda domésticos e concretassem ossos sob o piso da casa onde vive a matilha, pertencente a um ex-policial civil. Tudo isso para construir a tese de que não há crime sem cadáver.
JOGOS MORTAIS - Voltando cerca de uma semana no tempo dos telejornais, lá estão as cenas em que o mesmo goleiro Bruno, ao voltar aos treinos no Flamengo, se mostra sorridente e descontraído para a imprensa, a quem diz que espera que a amante, ex-amante ou o que quer que Eliza tenha sido em sua vida, reapareça logo para esclarecer o mal entendido criado com o desaparecimento. Sabe-se, agora, que ele sabia mais do que ninguém que a moça jamais reapareceria e sabia por quais razões. E, mesmo assim, sorria? Para o circo ficar completo, só falta alguma entidade de defesa dos animais usar um habeas corpus para libertar os cães, afinal foram condenados sem direito a julgamento.
Na história recente da crônica policial, jornalística e televisiva brasileira o que não faltam são casos em que o telespectador fica boquiaberto enquanto profissionais de imprensa de todos os quilates narram os detalhes mais sórdidos. Os casos Richthofen, Eloá, Nardoni, João Hélio, o menino das agulhas, a procuradora que torturava a filha adotada e, recentemente, o caso Mércia. Os elementos iniciais do cenário da morte de Eliza, no entanto, são insuperáveis. Começam com narrativas de orgias sexuais do tipo em que constam elementos como anões, jumentos (sim, os asnos mesmo), ex-BBBs e essa categoria difusa que se auto-intitula genericamente como modelo, e terminam com 10 rottweilers acusados de comer um ser humano. Nada mais surreal do que o contido Paulo Renato, repórter da Rede Globo, narrando no Jornal Nacional como os matadores de Eliza teriam atirado inicialmente suas mãos decepadas para os cachorros. Jogos Mortais deveria reivindicar censura livre no Brasil.
MICROONDAS - Independemente do desfecho do episódio, o fato é que ele já produziu detalhes inesquecíveis para os telespectadores. O caso é de uma narrativa tão grotesca que parecem sobrar elementos sórdidos, em se tratando de uma história só. Para além de se tratar de mais uma contribuição abjeta para a espiral incessante da violência cometida contra a mulher no Brasil, há de tudo neste caso. Eliza foi abandonada pela mãe ainda bebê, sob a alegação de que o pai era um agressor contumaz. Com o desaparecimento da moça anunciado na mídia, a mãe volta à trama, chorosa, implorando pela guarda do neto, o bebê objeto da tragédia da filha. A guarda provisória está com o avô que, como se não bastassem todos os demais dados dessa história já vindos à tona, apareceu na imprensa esta semana como acusado do crime de estupro contra uma menina de 10 anos, no Paraná.
Em meio a tudo isso e às negativas de Bruno, o advogado dos amigos do goleiro acusados de participação no crime, afirmava, assertivo. “Vou desmontar esse depoimento. Um cachorro não come 20 quilos de carne. E só se Macarrão fosse estúpido para levar o corpo para esconder em Minas, com tantos microondas no Rio”. Para quem não sabe, microondas são pilhas de pneus onde, nos morros, os traficantes queimam o corpo de suas vítimas para eliminar provas. Argumento bem fundamentado é assim. Macarrão, Luís Henrique Romão, o amigo-empregado de Bruno, é um personagem à parte, um tipo naturalíssimo na rotina doméstica de todo novo rico e emergente. É uma mistura de empregado, escravo de luxo, puxa-saco e capitão do mato. Faz de tudo, de captação de gostosonas para as orgias à assunção da culpa pelas coisas indizíveis feitas pelo patrão. É a versão vulgarizada e adaptada de eminência parda para pagodeiros, jogadores de futebol, políticos corruptos, estrelas drogaditas e emergentes e decadentes em geral.